sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Desassossegada

Eu não tenho essa saudade, esse desejo de voltar no tempo, o que passou, passou.
Essa nostalgia de décadas passadas, de vidas já vividas, de comportamentos em contextos tão diferentes dos estão aí hoje, isso eu não tenho.
Just walk and don´t look back.
O que eu tenho mesmo é uma dificuldade em entender onde foi que se perdeu a gentileza, que nós são esses que nos amarram, porque tantas encruzilhadas, não entendo de onde vem as muralhas que nos separam uns dos outros, os valores tão vazios que esse maravilhoso mundo novo criou, onde cada um só cuida de si, onde não há tempo pra refletir, onde não existem escolhas a fazer, onde seu destino já está traçado, onde você acorda de manhã e tudo já está programado.
E se você não se adapta a esse sistema míope de realidade é imediatamente excluído, passa a viver à margem dos acontecimentos, e longe das pessoas e de suas zonas de conforto.
As pessoas não querem se envolver com nada que não seja borbulhante como brindes de champagne já que qualquer coisa mais profunda do que isso se torna desconfortável, e é aí que a ignorância passa a ser quase uma dádiva, uma rota de fuga.
Então é assim, sempre mais fácil não dizer o que se pensa e o que se sente verdadeiramente, é sempre mais fácil aderir, se adaptar, calar e se submeter, e nesse momento é que tenho saudade, uma saudade de quebrar as regras, de não corresponder às expectativas, de mudar o rumo dessa prosa, de tomar um atalho, de dizer não, isso eu não quero, e dizer sim, isso me encanta, é pra lá que eu vou.
Não tenho saudade do que já fui, tenho só o desejo de continuar sendo livre para escolher a minha dose de emoção.
Sou assim, eternamente desassossegada.






quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

No es por ti - Grupo Corpo (Lecuona)

Sempre em setembro

Talvez por acaso, talvez não, eu nasci em setembro, e abaixo da linha do Equador, o que é ainda melhor.
Um tempo de esperar a primavera, com seus perfumes que chegam renovando verdes e cores.
Talvez também não por acaso, cheguei ao mundo fazendo parte dessa intrigante categoria denominada virginianos, seres estranhos do elemento Terra, perfeccionistas, críticos, generosos, frequentemente muito chatinhos, e de acordo com algumas vertentes, muito organizados, o que poderia ser facilmente desmentido por qualquer um que tenha acesso aos meus armários.
Deve ser culpa do tal do ascendente, esse que eu ainda não tive o prazer de conhecer, o responsável por essa predominante preguiça de arrumar as coisas por dentro, quem sabe como um mecanismo de preservação dos sonhos.
Talvez seja isso...a razão pela qual eu nem sempre consiga dizer a todos que guardo nas minhas gavetinhas o quanto eu os amo, e agradecer por fazerem parte da minha vida de uma maneira ou de outra, todos igualmente importantes, estejam lá no fundo há algum tempo ou recém guardados...
Então é agora, nesse exato momento que recebo tantas mensagens de carinho, que aproveito para desejar a cada um de vocês toda essa felicidade em dobro e uma primavera repleta de boas novidades.
Um beijo a todos! boa noite que amanhã já é hoje.

A condição

Diante dos fatos cotidianos da vida atual (a minha, é claro) tenho refletido bastante e cheguei a seguinte conclusão:
Sou rica, mas estou pobre.
Isso não é nada agradável, mas ainda me permite vislumbrar uma janela, um atalho, uma possibilidade de vôo, alguns acessos inesperados...
Então pensei que existe uma situação muito pior:
Ser pobre e estar rico.
Pois essa é realmente uma condição imutável, já que a verdadeira pobreza é acima de tudo a total incapacidade de enxergar além do horizonte e perceber as pessoas à sua volta, é não sair do lugar mesmo com todos os caminhos abertos, e isso é hermético, inoxidável e verdadeiramente insuportável.
Assim, deito a cabeça no travesseiro e vou dormir mais sossegada.
Boa noite.

Despertar

Me sinto como se estivesse em uma nave fora da órbita da Terra flutuando tranquilamente no espaço sideral, e que de repente é arremessada de volta, atravessando a atmosfera e se espatifando em solo árido.

Ida e volta

Não tenho medo de ir, só de não voltar.
Mas se não voltar é porque preciso ficar, e se não ficar é porque preciso voltar.
De uma maneira ou de outra, vou seguindo o fluxo e se tudo parecer parado no fogo cruzado, descubro um atalho.
A gente sempre passa por um, desapercebido.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Azamiga

São elas, as minhas amigas.
Aquelas que me fazem esquecer do que não vale a pena, ou que me lembram só das coisas mais relevantes, as que me fazem perceber quem eu sou, ou me fazem esquecer de quem não gosto de ser, as verdadeiras, as mais engraçadas, as que me situam, me divertem, aquelas capazes de alinhar os planetas.
Não são muitas, nem são poucas, as amigas que me fazem rir, ou chorar só se for o caso, pois lágrimas não foram feitas para desperdiçar, há que se ter uma bela justificativa.
Já os sorrisos de cumplicidade, e as gargalhadas sem disfarces, são sem limites.
Quando estou com elas, sou só eu, eu e elas, e aí então somos as melhores.
Sempre no tempo presente.
São tantas, e tantas outras, com menos tempo de estrada, mas tão importantes, cada uma capaz de identificar as afinidades, sem fazer uso dos parâmetros óbvios para o resto do mundo.
Para todas as grandes mulheres que cruzo no caminho aqui e ali, e que já marcaram seu território, I have to say: 
Tem amor pra todo mundo.
Mas as melhores...a essa altura, são imbatíveis.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Simples assim

Costumo ser muito emblemática, quase óbvia, é só prestar atenção nos sinais, estão em toda a parte, eu deixo rastros, pegadas, algum indício largado pra trás, não sei onde ficam os esconderijos, sou presa fácil.
Aí você decide se gosta ou não, se sim pode ficar à vontade, se não press the button e tchum! I´m gone.
Não é simples?



Ventania

Vento que venta na direção certeira, entrando pelas janelas e circulando pela casa.
Há de ser alguma coisa positiva, esse vento que passa levando incertezas, que sopra na minha direção para me lembrar que mesmo aqui, parada onde estou, tudo é movimento.
Vento frio de arrepio, que balança o verde lá fora, que sopra um segredo e vai embora só pra voltar daqui a pouco outro vez, me desafiando a mudar de lugar, a procurar abrigo, a enfrentar as tempestades, o mesmo vento que escurece pra depois clarear.
Vento que mexe com as marés, que traz o cheiro do mar, que desarruma os cabelos, que não me deixa quieta.

Deve ser isso...tudo culpa do vento.

domingo, 23 de novembro de 2014

Um dia parado no caminho

Hoje esse dia foi meio assim, meio assado, meio vazio, meio molhado, meio sem pé nem cabeça, meio lá, meio cá, meio chato, meio estranho, e agora meia lua já não tão super, decrescendo escondida atrás desse céu meio dia, meio noite, meio cinza, nesse dia meio chuvoso.

Um dia assim, parado no meio do caminho.

Acabou?

Nem sei por onde recomeçar, quando alguma coisa acaba.
Nem sei se realmente alguma coisa acaba, acho mesmo que nada tem fim, percebo que só vai se diluindo na poeira das lembranças, e vira aquela areia purpurina que se movimenta sempre, que se solta do solo pra desenhar novas curvas e horizontes infinitos, partículas brilhantes  iguais aquelas que flutuavam no mar da minha infância, naquele mar do Sul tão indecifrável, onde tudo era tão vivo, que não era nem verde nem azul como a gente costuma sonhar o mar, mas tão transparente que dependendo da luz, tinha a cor que eu quisesse enxergar.
Nem sei se alguém vai lembrar de mim como eu lembro de cada grão de areia que permanece flutuando aqui e ali, se distanciando ou se aproximando conforme as marés determinam, encontros e desencontros em cada onda que quebra, em cada vento que sopra, em cada rua que atravesso, em cada perigo que enfrento, em cada dia que termina, e quem disse que o dia termina?
Pois se a noite continua acesa, e eu já nem sei mais se tudo isso faz tanto tempo, ou se nasci agora, tanto faz.
Queria saber mas nunca sei, sei só um pouco mas quase nada, e nem sei se isso é bom ou não.
Mas acho que sim.

Sim sim, salamim.

Uma certa preguiça

Tenho um tipo muito peculiar de preguiça:
Tenho preguiça de descansar, e graças a essa característica estranha, que só me permite o desligamento parcial da mente, estou sempre assim, com uma certa preguiça.
Por outro lado, não teria preguiça de ficar horas só balançando na rede, ouvindo as ondas quebrando, tchá, tchá...
Tenho mais preguiça de descansar quando tenho mais o que fazer.
Acho que preciso encontrar um lugar onde não há nada mais a ser feito.
Pelo menos por mim.

Ainda da série tenho preguiça:
Existe dentro de mim também um outro tipo de preguiça, mais subjetiva.
Preguiça de responder à altura, preguiça de explicar o óbvio, preguiça de narizes em pé, dessa gente que se acha tão importante e que não faz nenhuma diferença na vida de ninguém,  preguiça de opiniões radicais, de verdades absolutas, preguiça de chatice em geral.
Ok, sei que ando muito preguiçosa.
Vou já executar a série mais importante de exercícios para qualquer ser humano.
Resiliência, tolerância, paciência.
Depois de umas 500 repetições dessa série por dia, quem sabe...essa talvez seja a coisa mais efetiva que eu possa fazer por mim nesses tempos modernos.

Haja...

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Tempo sem tempo

Sobra tempo desperdiçado, falta tempo produtivo, tempo que passa quando tinha que esperar, tempo que espera quando tinha que passar.
Tempo sem tempo pra nada, tempo deslocado no tempo, tempo limite, tempo encerrado, não deu tempo, tente novamente, reinicie a sessão.
Se der tempo eu vou, se não der volto outro dia.
Tempo implacável.

sábado, 1 de novembro de 2014

Com licença, obrigada.

Peço licença para que os meus tantos anos de vida ocupem o espaço conquistado, no tempo, no corpo, no espírito, na vida, na minha vida, que é só a minha vida, não a sua, nem de mais ninguém.
Peço licença para as minhas marcas, minhas alegrias, minhas desilusões, minhas dúvidas, minhas qualidades e meus defeitos, todos já tão bem identificados por mim e por todos que passam pela minha vida, peço licença para riscar o meu quadrado, e deixar uma janela aberta para que entrem as novidades que me emocionem, que me mobilizem, que me transformem em alguém melhor, se ainda der tempo.
Se ainda der tempo posso aprender mais, mudar de rumo, de opinião, desviar o caminho, pegar um atalho, se não machucar a mim nem a ninguém, se não tiver um gosto amargo, se assim se fizer necessário, se for divertido, se somar amor, paciência, tolerância e sabedoria, se valer a pena.
Senão, peço licença pra ficar aqui assim bem quietinha, só admirando a lua crescente, esperando que ela me surpreenda metade luminosa, para depois minguar e renascer, licença para observar o movimento das marés, sentir o calor do sol na pele, e continuar caminhando, buscando respostas, curiosa que sou, para as perguntas que nunca calam e que provavelmente, vou levar comigo para esse lugar que me é destinado, mas que ainda não sei onde fica.
Licença para ser só o que sou, nada mais, nada menos, licença pra mudar de idéia, diante de um bom argumento.
Licença para ser feliz, do jeito que der.







Areia movediça

Uma das coisas que mais me causavam medo na infância (não eram muitas coisas, talvez nenhuma além dessa) era a questão de cair na cilada da areia movediça.
Mais que o Bicho Papão, mais que os fantasmas, os zumbis, os vampiros, as bruxas, a maçã envenenada, a mula sem cabeça, até mais que Jack Nicholson e seu machado em “O Iluminado”.
Essa imagem de se perceber assim de repente presa nessa viscosidade, que vai lentamente engolindo seus movimentos, sua força e vontade de lutar, te enfraquecendo até que você perca a coragem, a força e finalmente o ar que respira, sempre foi aterrorizante.
Freud deve explicar, mas não tenho tempo pra ele.
Aí vem a vida demandando movimentos radicais de alto risco, então é hora de engatar a marcha, acelerar pra não atolar, hora de mexer os pauzinhos.
E ficar sempre muito atenta, porque o que não falta é areia movediça camuflada nos caminhos.


Garota da praia

Acho que sempre fui reconhecida essencialmente como a garota da praia.
Não importa o que eu fizer, onde estiver, quantos anos se passaram desde a garota, não importa o meu desempenho profissional, as ondas que surfei na vida, se sou loira, se nem tanto, onde estive, onde estarei um dia, quantas águas rolaram, quem eu sou ou deixei de ser, tenho certeza que se alguém perguntar por mim, todo mundo vai responder:
Quem, aquela que é feliz na praia?
Sim, essa sou eu mesmo, essa que deixa todos os problemas, todas as insatisfações, todo o baixo astral no mar, que se renova a cada mergulho, que adora sentir a pele ardendo, que chega preto e branco e sai colorida, essa sou eu.
Pode ser com todo mundo, com quem eu amo, sozinha comigo mesma, não importa.
É o que me basta.
Junto com a música, talvez seja isso o que eu chame de minha religião.

Desassossego

Eu não tenho essa saudade, esse desejo de voltar no tempo, o que passou, passou.
Essa nostalgia de décadas passadas, de vidas já vividas, de comportamentos em contextos tão diferentes dos estão aí hoje, isso eu não tenho.
Just walk and don´t look back.
O que eu tenho mesmo é uma dificuldade em entender onde foi que se perdeu a gentileza, que nós são esses que nos amarram, porque tantas encruzilhadas, não entendo de onde vem as muralhas que nos separam uns dos outros, os valores tão vazios que esse maravilhoso mundo novo criou, onde cada um só cuida de si, onde não há tempo pra refletir, onde não existem escolhas a fazer, onde seu destino já está traçado, onde você acorda de manhã e tudo já está programado.
E se você resolver que não quer nada disso é imediatamente excluído, e passa a viver à margem dos acontecimentos, e longe das pessoas e de suas zonas de conforto.
As pessoas não querem se envolver com nada, isso é desconfortável.
Então é assim, sempre mais fácil não dizer o que se pensa, e o que se sente verdadeiramente, é sempre mais fácil aderir, se adaptar, calar e se submeter, e aí sim, eu tenho saudade, saudade de quebrar as regras, de não corresponder às expectativas, de mudar o rumo dessa prosa, de tomar um atalho, de dizer não, isso eu não quero, e dizer sim, isso me encanta, é pra lá que eu vou.
Não tenho saudade do que já fui, tenho só o desejo de continuar sendo.
Sou assim, desassossegada.




quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O monstro das eleições

Independente de convicções políticas, o que mais me impressiona nessas eleições é o lodo viscoso que subiu à superfície.
Ando vendo solto por aqui o pior de todos nós, o monstro irascível da lagoa turva e poluída dos nossos recalques acorrentados, a ausência de qualquer indício de inteligência emocional, a nossa capacidade de esvaziar o conteúdo, de perder o foco principal da conversa, subir o tom da voz e baixar o nível pura e simplesmente para provar que temos razão, esse vale tudo, esse fura olho, essa falta de educação generalizada, só para no final levantarmos a taça com o nariz sangrando e poder gritar: Vencemos!Eu acho que depois disso, seja qual for o resultado, todos nós já perdemos.Volte cinco casas no jogo da evolução humana.

domingo, 19 de outubro de 2014

Al Di Meola plays Piazzola - Milonga del Angel

Uma belíssima crônica do amigo Braz Chediak!

VIAGEM AO XINGU
Braz Chediak
Quando jovem, passei uns tempos filmando na Reserva do Xingu, com os irmãos Villas-Boas. Conheci os Camaiurás, os Uilapitis, os Tikões e outras tribos, e me fascinei com a simplicidade e verdade da vida daqueles povos. Senti que eram felizes. E essa felicidade não vinha apenas por se saberem protegidos por aqueles grandes sertanistas, Cláudio e Orlando, mas por terem uma vida plena, em contato direto com a terra, em harmonia com o universo.
Para os índios, a mata, os rios, os animais, os pássaros, os insetos - vivos e mortos - fazem parte do grande Mavotsinim, o Deus, o Cosmo, o Todo. Não há a moral cartesiana, que separa e divide o Ser Humano e, portanto, não há medos.
Uma das coisas que observei é que os índios não têm calendários nem espelhos, e, sem calendário, o tempo, para eles, é o hoje, o agora. Sem espelhos, não percebem seu próprio envelhecimento. Eles não temem o fim, não têm vaidades superficiais. Ou seja: são eternos.
Até mesmo na arte a eternidade toma o lugar das vaidades. Os índios tocam a música, dançam a dança, pintam a pintura que aprenderam com seus antepassados. A Arte indígena – assim mesmo, com maiúscula - é paradigma, sem contestações tolas, como o risco do bordado, e evolui como todas as coisas: mas sem pressa e sem pausa.
Sem pressa e sem pausa também caminha a vida e, uma tarde, vendo uma indiazinha, uma jovem mãe, carregar seu filho grudado no corpo enquanto lhe cantava canções de sua tribo, me comovi tanto que tive vontade de ficar ali para sempre.
Naquela época eu estava lendo um velho romance de Jean Giono e havia um trecho em que o narrador, ao ver que a personagem feminina não cantava para o filho, dizia a si mesmo: “Então ela não canta nunca para o garoto? Não sabe que as mães fazem simultaneamente leite e canções para o apetite da boca e o apetite do cérebro? Ele será então um garoto que da vida só conhecerá os maus ruídos, os ruídos ásperos? Não terá sob sua cabeça as canções de mãe que parecem frutos e que eu, por infeliz que seja ainda tenho bem frescos, bem roliços e bem sumarentos?”
Pensando no romance, em sua trama de desencontros, e vendo aquela indiazinha tratar com tanta ternura seu filho, imaginei que por artes e por fatos como estes o jovem Artaud, num lampejo de lucidez, procurou a perfeição entre os Tarahumaras, no México, pois eles, como os nossos índios, representavam um ideal de harmonia entre a Arte e a Vida. As mães Tarahumaras, tenho certeza, cantavam para seus filhos, como a terra canta para nós.
Os índios, ao invés do tradicional tapa na bunda que nós damos nos recém nascidos, jogam sobre eles uma cuia d’água. Talvez por isto suas crianças tenham tanta ligação com a água, pois ela, ao invés de estar ligada ao afogamento, está ligada à primeira respiração. Talvez por isto me encantei ao vê-las brincando dentro de uma grande e límpida lagoa, onde as ondas, formadas por seus movimentos, se assemelhavam a pétalas móveis e elas, as crianças, pareciam pequenas abelhas, bêbadas dentro de uma flor. Como estavam alegres. Aquelas crianças pertenciam à alegria. Elas riam porque o sol estava quente, o céu estava azul, as araras voavam aos bandos. Elas riam porque havia peixe e biju de farinha. Elas riam porque eram crianças índias e estavam na água. Os indiozinhos, ao contrário de nossas crianças, gostam do banho, tomam diversos banhos por dia não para se limparem, pois são naturalmente limpos, mas porque a água também é a grande mãe.
Minha vida sempre foi incerta e errante. Muitas vezes não tive um travesseiro para repousar minha cabeça à noite. Muitas vezes não tive o pão de cada dia para me alimentar o corpo, ou uma companheira para me alimentar o espírito. Muitas vezes estive só. Mas sempre carreguei comigo o sentimento de que estava viajando, que aprendi no Xingu. Não a viagem à selva, de avião, de jipe ou de barco. Mas a viagem da vida. E o sentimento desta viagem me ajudou a compreender-me e a compreender meu próximo. Ajudou-me a compreender que um dia estaremos todos juntos, todos brincando, como as crianças índias, nos Páramos eternos, no grande OM, na grande PAZ.

Danos irreversíveis

Tenho andado tanto tempo dentro do meu carro velho cruzando a cidade nos engarrafamentos, que estou desenvolvendo uma relação, um processo de simbiose com ele...
Somos quase iguais atualmente, uma calota perdida é como um dente que me falta, coisas que trepidam e fazem ruídos estranhos parecem com meus joelhos...às vezes acelero e sinto a antiga potência do motor que fui um dia, outras vezes engasgo na ladeira...
Tem dias que preciso deixa-lo na garagem quieto, exatamente como fico no sofá, somos abastecidos periodicamente com uma dose extra de combustível suficiente para continuar rodando, mas nunca negamos fogo.
Quando isso acontece, o caso é grave.
Acho que estou ficando estranha mesmo.
O Ministério da Saúde adverte: trabalhar em um dia esplendoroso como hoje pode causar extremo desequilíbrio psicológico.
Somado a engarrafamentos surreais, os danos podem ser irreversíveis.

Fazer o quê....é o que temos para hoje.

Zotto dancing milonga at Tango Magia 15

Sobre a alface metafórica

Ai que preguiça dessas teorias de conspirações, dessas reações insanas diante de qualquer comentário, dessa falta de lucidez, de senso de humor.
Outro dia escrevi algo e disse: Não quero vida com saber de alface.
Um amigo compartilhou, e minha alface metafórica foi alvo de defesas radicais, do tipo: Não quero vida com sabor de morte (????).
No meu tempo isso era conhecido como paranóia.



No detox

Eu não quero detox, eu não quero botox.
Eu não quero ter que viver para eliminar os excessos, os excessos de tudo que me fez bem, que me fez mal, que acumulei, que desperdicei, que fiz demais ou de menos, os excessos que me marcaram, os que passaram desapercebidos.
Quero continuar intoxicada daquilo que vivi, continuar acumulando marcas, continuar tendo uma estória pra contar, triste ou feliz, quero uma feijoada existencial, quero tudo que estiver disponível, e se for pouco poder juntar os restos, temperar, reciclar, mistura e manda, quero planos abertos, mais liberdade de escolha, e não caminhos cada vez mais restritos, mais proibidos, mais desinteressantes.
Não quero vida com sabor de alface.
Quero virar enciclopédia, material de pesquisa, quero servir para alguma coisa que não seja só uma bela imagem gravada nos instagrams da vida.
No final, tudo que fica dessa matéria vai virar pó mesmo.
Que pelo menos eu deixe uma malinha de preciosidades surpreendentes para alguém abrir um dia.

Tim tim.

Sabe de nada, inocente...

Quando penso que já vi tudo, não passei ainda da página dois.
Tenho muito o que aprender, especialmente sobre os cinquenta tons que podem retratar a falta de escrúpulos de um ser humano idiota, entre tantos disfarçados por aí.
Fora os espertinhos (lugar comum, facilmente identificáveis) e os dissimulados que fingem um grande amor por você (com esses também já estou acostumada), essa é uma categoria mafiosa para a qual ainda não desenvolvi plenas defesas.
Não vim ao mundo pra isso, mas já que...eles que me aguardem.

Sempre na maior elegância, é claro.

O barquinho

Hoje não tinha jeito...precisei parar pra abastecer.
Deixo o sol esquentar a pele até dourar, deixo o calor assar minhas turbulências em fogo lento, até que todos os temperos da alma exalem seus aromas, ácidos, cítricos, suaves, doces, deixo as especiarias penetrarem, até que só o verdadeiro sabor prevaleça.
Então me jogo no mar como se pulasse de paraquedas, pra vencer o medo, pra buscar coragem, pra soltar as energias negativas nas correntes, e lá me confesso, e olho para o céu com as retinas respingadas de sal e confesso todas as dores, as perdas, confesso minhas mágoas talvez injustas, confesso que preciso de ajuda mas só sei pedir ao mar, imenso mar infinito que sempre me ouve.
Não aprendi a viver sem respostas, e o mar sempre me responde.

Até hoje não sei onde fica a casa de Deus, mas certamente ele tem um barquinho.

sábado, 18 de outubro de 2014

Uma dúvida (entre tantas)

Seguindo a reflexão, eis o dilema: 
Afinal, sou mesmo uma pessoa de fé, que dorme e acorda agradecendo e pedindo a proteção de Deus, sempre na certeza de que Ele está trabalhando por mim, e injetando forças no meu espírito, resignação na minha vida, e me fazendo acreditar que sim, ainda é possível sonhar? 
Ou sou aquela pessoa cética, que não pode obter nenhuma certeza absoluta a respeito da verdade, sempre implicante em uma condição intelectual de questionamento permanente e na inadmissão da existência de fenômenos metafísicos, religiosos e dogmas, conforme descreve a Wikipedia, que aliás, aqui entre nós, é sempre questionável... 
E aí queridos astrólogos de plantão, é possível ser virginiana e não questionar? 
É possível ser virginiana e mesmo questionando, ainda assim sonhar? 
E afinal, quem é que paga as minhas contas? 
Eu e eu, com a ajuda de Deus, ou eu e eu com essa força estranha que nem mesmo eu sei de onde vem, talvez dessa irreverente vontade de tirar tudo do sério e insistir em transformar os sonhos em realidade, e afinal, que diferença isso faz, para mim ou para você? 
Preciso chegar a uma conclusão antes do fim do mundo, aguardo esclarecimentos.

É tanta gente que nem sei

Eu sei quem gosta de mim, eu sei quem não gosta de mim, mas tem gente que eu não sei.
Eu sei que tem gente que não gosta de nada, e que tem gente que gosta de tudo, mas esses, na dúvida, geralmente não gostam de mim também.
Eu entendo...gostar de mim é meio complicado, embora eu nem ache que seja.
Eu gosto de muita gente, muita gente que às vezes também gosta de mim, mas às vezes não.
Eu não gosto de todo mundo, todo mundo é muita gente, gente demais pra gostar, gente demais pra conquistar, gente que não quer, gente que não entende, gente que não dá tempo, gente que me escapa, gente que fica pra próxima, e tem gente que insiste em ficar.

Tá faltando espaço pra tanta gente, mas para os que fazem questão, a gente dá um jeitinho.
Dentro de um coração cabe muita gente.

Preconceito

Aqui no Brasil devia ser obrigatório fazer um exame de sangue para identificar o grau de mistura de cada um de nós.
Vai entender de onde vem o preconceito...ninguém é verdadeiramente branco aqui.
Desde muito cedo na vida, me intriga o fato de me olhar no espelho e encontrar esse olho azul, esse cabelo clarinho, de ser apelidada de alemãzinha enquanto o meu coração se emocionava com essa linguagem tão negra, com o quadril quebrando, com o canto potente, quase uma prece, com a alma saindo pela voz, seja pelo samba, pelo blues, pelo jazz, pelo rock impregnado de referências, e tantas outras coisas misturadas que arrepiam os pelinhos loiros da minha nuca.
De alemã mesmo, só esse prazer ao primeiro gole de uma cerveja, loira e gelada.
E talvez, um certo raciocínio lógico e objetivo.
E quem sabe um pouco mais do que isso, mas nada tão predominante que não seja facilmente desativado pelo grau de mistura que certamente circula nas minhas veias.
Certamente algum antepassado pulou a cerca por aqui.
Ainda bem, meu bem.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Milonga de Amor

Hugo Diaz - Milonga Triste

Anjos levianos

Então ela toma uma decisão irrevogável:
Daqui para a frente, perderá os escrúpulos a ela impingidos por um decreto lei qualquer, assinado não se sabe por quem, desamarrará os nós, abrirá as asas para voar mais alto e se tornará cada vez mais leviana.
Leviana como anjos que não precisam mais se arrepender de nada, flutuando nas nuvens celestiais de suas escolhas, degustando suas decisões acima de qualquer julgamento.
Os anjos desconhecem o medo.
Ela também saberá finalmente ignorar as sombras, seguirá protegida pela pureza de suas intenções, e desprovida que já vai estar de qualquer culpa ou remorso, poderá então sentir o aroma da plenitude.
Só um detalhe: é bom que esteja preparada, pois nesses casos, costuma voar pedra pra todos os lados.
Benção pra ela.





Mistura e manda

Não saberia definir esse espaço virtual onde hoje me conecto a tantas pessoas, qual é o fio condutor que me leva em flashes ao passado, ao aqui e agora e porque não, ao futuro também... como uma máquina do tempo que me transporta de volta a momentos já vividos, ao dia a dia das pessoas e quem sabe talvez, ao encontro de novidades.
De início estranhei não olhar nos olhos, não sentir o coração batendo num abraço ou a força de um aperto de mãos, de brindar ao vivo, e sair soprando um beijo de despedida, rumo aos próximos encontros.
Mas quantas trocas, quantos reencontros acontecem por aqui, quase como a emoção de receber uma carta na caixa do correio, quantas surpresas acontecem.
Sim, eu sei...Nada se compara à presença, a maravilhosa energia da proximidade física, ouvir e sentir o calor de vozes como se escuta música, ficar junto de quem se gosta ao vivo e a cores em alta definição, mas aqui também se pode jogar sementes, cultivar idéias e opiniões, e continuar a tecer a teia de comunicação com aqueles que reconhecemos à distância.
Os faróis que escolhemos para iluminar a caminhada, independente das distâncias.
Às vezes fica chato, às vezes é bem divertido, às vezes não é nada simplesmente.
Mas é interessante.
O que não servir, a gente descarta, mistura e recicla.

Locomotiva



Hoje é sexta feira??? Nem percebi.
Às vezes me sinto como uma locomotiva (ainda existem locomotivas?), um expresso do oriente, uma maria fumaça transcontinental, cujo principal combustível é a vontade de atravessar terras, desbravar possibilidades, cumprir trajetos, e um dia finalmente, chegar na praia.
Ufa....haja vapor.

Será?

Será impressão minha ou:
- a zona de conforto é uma utopia
- é preciso cada vez mais gente pra desempenhar uma simples tarefa
- não será nessa encarnação que verei o Brasil tomar vergonha na cara
- eu sempre vou me perder em Jacarepaguá
Será?

Um dia

Um dia, eu juro, serei alguém sem você, alguém que já fui um dia antes de você chegar, alguém além de mim mesma, alguém que você amaria pra sempre, alguém mais suave, menos dilacerada, mais evoluída.
Alguém capaz de ir além de você, você que seguiu adiante, que partiu me deixando pra trás, talvez abrindo caminho para um outro alguém, que desconfio, está dentro de mim escondida, esperando a tempestade passar.
Então, eu juro que te agradeço por tudo, e sigo adiante, procurando esse alguém que falta em mim, sem você.
Um dia, qualquer dia, falta pouco.

Aviso

Não sei precisar o exato momento em que o mar me avisou, acho que era bem pequena, quando encostei uma dessas grandes conchas no ouvido, e descobri espantada que o mar falava comigo.
Foi então que ouvi o mar me dizendo:
Escuta bem, só eu vou te abraçar para o resto da vida, só essa onda que eu empurro na tua direção pra te desafiar a astúcia e a coragem, só a espuma branca e macia dessa onda vai lamber o teu corpo sempre que você precisar de carinho, só eu, o mar, vou te amar pra sempre.
Só eu posso impregnar tua alma com o sal que cura todas as dores, só eu sou como você, um dia esmeralda translúcida, outro dia chumbo denso, só eu vou fingir que não percebo a ousadia do vento te soprando segredos, pois sendo o mar, não preciso da tua fidelidade, preciso de um só instante, o mergulho profundo, a entrega sem medo, e então te deixo partir beijando teus pés na certeza da tua volta.
Eu escutei o mar...e volto, sempre.

Excesso de lucidez

Ok, queridas pessoas que ainda habitam esse planeta, vamos combinar: vocês são um luxo, talvez eu também seja, o Rio de Janeiro continua lindo, não faltam “instagrams” para comprovar esse fato, o Brasil é um país único em sua diversidade de maravilhas mil, sempre existirá Paris, Obama foi reeleito (so what?) andamos com fé, somos uma tribo de poetas de olhos brilhantes que se encantam com a lua, com o nascer do sol exuberante, capazes de renascer a cada mergulho, porém...a cada dia que passa, a cada notícia que chega de Brasília (você acredita mesmo amigo, que aquela turminha da pesada verá o sol nascer quadrado somente por terem roubado um dinheirinho do povo? ah, tolinhos...), a cada engarrafamento monstro, a cada manifestação de arrogância e falta de educação que me atropela feito um rolo compressor em cada esquina por onde passo, a cada final do dia em que entro em casa e me pergunto, será que isso tudo vai melhorar?
Eu penso: quem sou eu afinal, essa pessoa que acorda assim, meio otimista, (devo ser mesmo uma pessoa estranha), pensando que every little thing is gonna be allright, e no final do dia vai dormir rezando, invocando todos os deuses, pedindo forças para acreditar que não, o mundo ainda não acabou, tudo vale a pena se a alma não é pequena?
O Ministério da Saúde Mental adverte: Excesso de lucidez pode causar danos irreversíveis à sua linda pessoa, tenha uma boa alimentação, pratique exercícios e esqueça de todo o resto, doses homeopáticas de alienação são altamente recomendáveis.
Beijo me liga

Ricos e pobres

Diante dos fatos cotidianos da vida atual (a minha, é claro) tenho refletido bastante e cheguei a seguinte conclusão:
Sou rica, mas estou pobre.
Isso não é nada agradável, mas ainda me permite vislumbrar uma janela, um atalho, uma possibilidade de vôo, alguns acessos inesperados...
Então pensei que existe uma situação muito pior:
Ser pobre e estar rico.
Pois essa é realmente uma condição imutável, já que nesse caso a verdadeira pobreza é a total incapacidade de enxergar o horizonte e as pessoas à sua volta, mesmo com todos os acessos permitidos, e isso é hermético, inoxidável e verdadeiramente insuportável.
Assim, deito a cabeça no travesseiro e vou dormir mais sossegada.
Boa noite

Chuvinha e cafuné

Barulhinho de chuva e cafuné são duas sensações bem parecidas.
Bom pra aquietar a mente, acalmar o coração, deixar pra lá e pra depois, e devagarinho adormecer.
Quem sabe até sonhar.

Sobre príncipes de verdade e os reis do nada

Arrogância…
Não tem a ver com poder aquisitivo, com status, com hierarquias sociais, é um dispositivo que já vem instalado na pessoa.
Parecido com a inveja...
Eu não estranho, embora me provoque náuseas, a previsível arrogância dos poderosos, mas quando encontro uma atendente de telemarketing, uma caixa de supermercado, um zé mané qualquer exercitando essa veia...de onde vem isso??? Me dá um mau humor súbito! 
É uma merda. A inveja é uma merda, a arrogância também é.
Mas aí aparece um rapaz muito jovem, magrinho, com dificuldades de fala, rosto cheio de marcas, deve pegar três conduções pra chegar ao trabalho, viver em condições sub-humanas, humilde, gentil, sorridente, bem educado, e oferece ajuda, ele que não tem nada a oferecer, oferece o que não tem, qualquer tipo de ajuda que possa dispor naquele momento.
Um príncipe.
Essa é a verdadeira realeza.
Que bom que sempre encontro alguém assim no meu caminho.
Pergunto o nome, se me der uma chance, ofereço meu abraço, e me despeço, agradecida por ele existir.
Deve ter alguma explicação.
Aos Reis do Nada, o meu desprezo.

Assim seja

Passei a primeira parte da vida brincando e sonhando, a segunda metade pintando e bordando o presente, e aprendendo a não pensar no futuro, que pra falar a verdade nem me interessava muito, e que conforme muitos me aconselhavam, a Deus deveria pertencer.
Agora na terceira (ou quarta, quinta, sei lá, já perdi a conta), descobri que se eu não olhar pra frente (e de preferência pra trás e para os lados também), Deus, esse cara que diante dos fatos que se sucedem nesse momento não deve ter tido sequer um tempo de ler a minha cartinha, deve realmente estar precisando de uma força tarefa, esperando que cada um faça o seu planejamento, trabalhe na sua planilha, e corra atrás desse futuro que só a nós pertence.
Ou se preferir, curto e grosso: levanta e vai à luta.
E eu obedeço, pois lá no fundo, sei que ele vai dar uma espiadinha, assim de canto de olho, e quando eu nem estiver percebendo, tudo pode dar certo.
Que assim seja.

Gratidão

Se eu fizer uma retrospectiva de tudo o que me acontece (e que paralelamente, também "desacontece", o que às vezes é ainda mais significativo), serei só gratidão.
Sai o que tem que sair, fica o que tem que ficar.
Preciso lembrar de agradecer por essa seleção natural, todos os dias da minha vida.

Despedidas (são tantas...)

Tempo de muitas despedidas.
Preciso reaprender a chorar, meu coração ficou muito esperto e fica ali quietinho, se protegendo de mais uma emoção, acostumado que está com essa montanha russa, com esse vai e vem, com esse entra e sai, com portas batendo, com essa incessante avalanche que está sempre à minha espreita, esperando que eu passe assim distraída...
Mas não tem jeito não...
Quando a emoção é bonita de viver, ele se entrega todinho.
Ainda bem, meu bem.
É sangue bom correndo nas veias.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Marés

Minha vida é assim, sempre em movimento, como as marés, nem bem termino um ciclo e já estou com saudades, de tantas coisas, de tanta gente, como uma lua cheia decrescendo, faltando um pedaço de luz, e ao mesmo tempo já sou toda olhos para o futuro, imaginando novidades, apertos de mãos e abraços que virão, como uma lua nova anunciando as mudanças, o crescimento.
E vai tudo passando assim tão rápido, nem bem saí de lá e já estou aqui em outro lugar, e nem bem percebi ainda como foi tudo tão importante e já preciso redimensionar as situações em que me encontro, organizar as gavetinhas, descobrir outros caminhos, ou quem sabe, só balançar na rede um pouquinho.
A vida está sempre à minha espreita, em cada esquina.
Às vezes preciso me esconder dela, senão ela não me dá sossego.

O Dragão

Todos os dias eu abro os olhos pela manhã e encontro um dragão, soltando fogo pelas ventas.
Então levanto, lanço mão das minhas melhores armas, de toda a minha astúcia e parto pra luta, e não me permito um minuto de desatenção, pois às vezes, por um segundo, olho pra ele e chego a achar que está sorrindo pra mim...
Mas não, é sempre uma armadilha, ele sabe que ainda sou capaz de sonhar, e isso é exatamente o que mais o irrita...e o dragão avança, ardiloso e cruel, determinado a me chutar para escanteio, e tomar conta da minha vida.
Chega uma certa hora, estamos os dois cansados...então fazemos um acordo temporário, uma trégua, uma bandeira branca, e deixamos tudo isso para amanhã.
Mas quando acordo, lá está o dragão.
De vez em quando percebo que estou quase me acostumando com sua presença, e penso que deve ser um erro de estratégia, pois definitivamente, não gosto dele.
Preciso convencê-lo a escolher outra presa, a tomar outro rumo, dizer a ele que meu sangue é doce e enjoado, que existem carnes mais macias, almas mais vazias, vidas mais temperadas com os sabores amargos que ele tanto aprecia, empanadas com inveja, arrogância e maledicência.
Descobrir a razão pela qual o dragão me escolheu, e não os anjos.
Talvez aí minhas chances aumentem.

Quatro estações

Uma vez alguém me propôs um teste para determinar que tipo de pessoa eu seria de acordo com as estações, uma espécie de guia que me ajudaria a encontrar as minhas cores, para vestir, maquiar, decorar a casa, enfim, aquela coisa fútil inútil.
Os tempos eram outros e eu estava ali meio de bobeira, então deixei a curiosidade solta e descobri: sou uma pessoa outono.
Fiquei em dúvida...e aquele verão todo dentro de mim? aquele calor, o pôr do sol derretendo no mar, a vontade de dançar, e os turquesas, e toda aquela luz?
Hoje faz mais sentido. Os amarelos, vermelhos e lilases, a ferrugem do tempo que sempre existiu dentro de mim, e esse verão com todas as tempestades e enxurradas que carregam coisas que amamos, mas que insiste em virar primavera de novo.
O inverno, não sei...vai ver que o frio é só solidão, mas quando ele chegar a gente conversa.

Frescobol

Se for pra jogar alguma coisa, fico com o frescobol.
Ninguém ganha, ninguém perde.
Eu entrego, você devolve.
É só troca, desafio para um novo movimento, pra mostrar uma direção inesperada, e se a bola cair, nenhum problema.
Se o jogo parar, não é desistência, é só pra dar um mergulho.
Só sei jogar a favor, se for contra, nem me chame.
Disso eu já sei: sou dessas.
Can I help you? Senão, me esqueça.

Aos amigos

Aos meus amigos do peito, e aos meus amigos da vida;
Aos meus amigos recentes, e aos meus amigos desde sempre;
Aos meus amigos do dia a dia, e aos meus amigos de um dia só;
Aos meus amigos presentes, e aos meus amigos ausentes;
Aos meus amigos que nem conheço, mas que mesmo assim reconheço;
Aos meus amigos de encontros e desencontros, de risos, e lágrimas, e parcerias, e abraços apertados, a todos os amigos de todos os momentos, espalhados por aí, em todas as partes, todos juntos no meu coração;
Eu desejo:
Que cada um monte a sua receita de felicidade, que encontrem os ingredientes necessários naquela hortinha verde da esperança, pincelem tudo com o pó mágico dos sonhos, e botem pra assar devagarinho, que é devagarinho que a gente chega lá!

Assim é se lhe parece

Ando assim na ponta dos pés, bem devagar, sem pressa, um passo de cada vez.
Respiro o ar rarefeito suavemente, olhando só para a frente, e de vez em quando, fecho os olhos.
De olhos fechados sou capaz de encontrar o eixo que estica meu corpo, procuro manter a cabeça em pé.
Abro os braços como se fossem asas de anjo, evito lembrar da linha quase imperceptível que me separa dos precipícios, balanço na corda, hora bamba, hora esticada, quase caio, mas não.
As asas me protegem.
Estudo cada passo, uso sapatilhas de pelúcia, exercito o silêncio para não causar avalanches, aqui e ali uma parada para me abastecer, armazeno essa luz azul e intensa que vem de algum lugar que não adivinho, avanço mais um pouco, constato que não caí, e continuo imaginando a chegada em terra firme.
Acredito nos sonhos.
Eu sou a equilibrista do abismo.

No mimimi

Não vim ao mundo pra ficar de mimimi, não preciso ser reconhecida, condecorada, talvez nem sequer admirada, muito pelo contrário.
O anonimato é uma roupa que me cai bem.
Gosto mesmo é de dividir os méritos e os erros, gosto de ser mais uma, de somar, multiplicar e dividir a bola, mas não gosto de subtrair, e não pretendo correr na frente para chegar antes e ocupar um lugar que não é meu.
Se por acaso esse lugar for meu, então é lá que você vai me encontrar, naturalmente.
Gosto mais de dar o passe do que marcar o gol.
Nem preciso entender a parte que me cabe nesse latifúndio, e duvido que exista alguém capaz de me explicar, então se me chamar eu vou, faço o que tenho que fazer, entenda isso como quase nada, ou quase tudo, não importa.
O que importa é a gentileza, a tolerância, a troca, o exercício da paciência, o aprendizado.
Alguma coisa fica, e se ficar é porque valeu, senão é o resto, e o resto vai para reciclagem.
No final, qualquer outra conquista é só uma sensação efêmera, e cedo ou tarde, quando fechar a conta, vamos todos para o mesmo lugar.
Ou talvez não...mas aí, só vou saber quando chegar lá.
Mas por enquanto, não tenho pressa não...não preciso saber de tudo.
Fico com os mistérios, sempre mais próximos dos sonhos.

Sem disfarces



Eu e minhas marcas, minhas irregularidades, meus remendos e um insistente brilho nos olhos, preto no branco, sem retoques no meio da exaustão.
Deixo a perfeição para quem não teve nada de interessante pra fazer durante uma meia vida inteira.



Tantas coisas...

Tem coisas que não conheço e gostaria de conhecer.
Tem coisas que eu preciso e não sei onde encontrar.
Tem coisas que já não preciso e gostaria de descartar.
Tem coisas que já sei e preferia não saber.
Tem coisas que é melhor nem te contar.
Mas tem coisas que simplesmente valem por todas as outras coisas.

E tem mais:


Uns vão, outros vem.
Uns estão, outros são.
Uns querem, outros não.

Fazer o quê?


O que é MILONGA?

Milonga:
“Um estilo de música tradicional em várias partes da América Latina e na Espanha, derivado da habanera e da guajira cubana e flamenca, assim como o tango.
É o ritmo nacional da Argentina, do Uruguai e do Rio Grande do Sul, também conhecido por Molonga.
A milonga originou-se de uma forma de canto e dança da Andaluzia, Espanha, que no final do século XIX, popularizou-se nos subúrbios de Montevidéu e Buenos Aires, nascendo assim o tango. Há versões que atribuem origem africana, tanto que defendem que o termo milonga significaria “palavras” em Bantu.
No livro “Nkissi Tata Dia Nguzu” de Sérgio Paulo Adolfo, é dito que no Candomblé o termo “milonga” – oriundo do quimbundo – é utilizado como sinônimo de mistura ou sincretismo.”
Pronto, já gostei.
Mas tem mais:
Milonga pode ser também aquele papo furado, aquela conversa fiada que se joga fora despretensiosamente quando não se tem pressa, pode ser malandragem, lero lero, piscadinha de olho, sorrisinho maroto, risadinha sarcástica, código de comunicação entre aqueles que se conhecem tão bem que já nem é preciso aprofundar os assuntos, ensaiar o discurso, vestir a fantasia.
Milonga é pra quem tem tempo a perder com a melhor coisa da vida, que é desperdiçar palavras com quem te entende sem ter que se preocupar em fazer sentido, ouvir estórias, trocar figurinhas, fazer a louca, coçar o pé, comer um bolo com café.
Milonga é uma coisa parecida com aquela música de Martinho da Vila, é devagar, é devagar, é devagar devagarinho, assim soltinho, só no sapatinho.
Tenho uma amiga que quando me convidava para alguma coisa parecida com isso tudo, mandava a senha: Vai ser a maior milonga!
Quando ela dizia isso, eu não pensava duas vezes.
Então é isso, quem quiser que chegue mais, sem lenço, sem documento, sem preconceito, sem compromisso, e não esquece de trazer um bate bola, um petit four, uma bebidinha, ou só a sua alegria.
E não me leve a mal, nem vem que não tem, aqui eu não brigo, é só milonga.